
Os avós e os nossos idosos são uma riqueza para a sociedade e para as famílias. Ganhamos todos com o contacto com eles. Têm sabedoria acumulada pelos anos, histórias enrugadas e sempre jovens.
Chamava-me Angelca e nunca percebi bem porquê nem se se escreveria assim. Questiono-me se queria dizer Angélica… Tinha os olhos azuis e uma pele tão bonita, a cara marcada por sulcos profundos que o tempo e os nove filhos tinham deixado. Toda a gente dizia que ela tinha um feitio terrível. Toda a gente me dizia que eu era muito parecida com ela. Quero acreditar que era pelos olhos azuis que herdei dela e da minha mãe.
A vida amaciou-a e continuo a recordá-la com muito carinho. Não era carinhosa, mas sempre soube que gostava muito de mim. Demonstrava-o em pequenas coisas. De vez em quando, eu engraxava os seus sapatos. Em troca dava-me uma moeda de 20 escudos.
Ainda me lembro do cheiro dela, quando partilhávamos a cama nas semanas em que ficava connosco. Nessas noites, dormíamos juntas. Com ela, aprendi a rezar antes de dormir. Foi ela quem me ensinou a dizer «Meu Senhor e meu Deus» durante a consagração na Missa. Só muitos anos mais tarde percebi o significado profundo daquela expressão.
Gostava de mergulhar o pão com manteiga numa grande taça de café, pelo pequeno-almoço. Andava sempre de preto, mesmo muitos anos depois de o marido morrer. O cabelo, numa trança enrolada em novelo, na parte de trás da cabeça. Sei que mais tarde o cortou, mas recordo-a ainda e sempre assim.
Recordo-me de olhar para ela e pensar que era de ferro e para sempre. Tinha sobrevivido a um cancro e a uma vida muito dura no campo.
Quando estava já muito velhinha, com mais de 90 anos, ficou doente. Quando a visitei no hospital murmurou «Angelca». Tinha-me reconhecido. Ficámos de mãos dadas algum tempo. Foi a única avó que conheci. Mais tarde “herdei” a avó do meu marido. Uma mulher jovem, independente e citadina, a quem também chamei avó. Recordo o seu sorriso amável, as mãos habilidosas para o croché e para comidas cheias de sabor e amor. Recordo-a de cada vez que vejo torta de laranja ou pataniscas de bacalhau.
Há algum tempo, ouvi a professora Teresa Medeiros, da Universidade dos Açores, citar um estudo que tinha feito sobre como as pessoas perspetivavam a sua família no futuro. Conclusão: viam-se casados, com filhos, cães e gatos… Muito poucos, quase nenhuns viam os seus pais velhinhos a fazer parte da família. É um sinal dos tempos que vivemos, em que homens e mulheres trabalham fora de casa, com horários extensos, poucos filhos e em que se tem perdido o cuidado dos nossos.
Quantos pais não deixam os filhos doentes na escola porque têm de ir trabalhar? Pode ser condenável porque contaminam as outras crianças e os doentes precisam de resguardo e descanso. Mas e se o emprego está em risco? Com os idosos acontece o mesmo, com a agravante de nem sequer estar contemplado na lei o direito de assistência a pais ou sogros.
Conheço e vejo alguns avós com os netos, inclusive os meus pais e sogros. Delicio-me e emociono-me com a forma como brincam com as crianças, como rejuvenescem e se reinventam. Brincam às escondidas e correm como se fossem garotos. Cantam as canções tradicionais e ensinam-nas às nossas crianças.
Os avós e os nossos idosos são uma riqueza para a sociedade e para as famílias. Ganhamos todos com o contacto com eles. Têm sabedoria acumulada pelos anos, histórias enrugadas e sempre jovens. Ensinam-nos muito acerca da vulnerabilidade e da resiliência. Aprendemos sobre nós próprios. Que possamos construir memórias bonitas com os nossos avós. Teresa e Clara são nomes que me trazem doçura ao coração, as avós que conheci.
Quantos pais não deixam os filhos doentes na escola porque têm de ir trabalhar? E se o emprego está em risco? Com os idosos acontece o mesmo, com a agravante de nem sequer estar contemplado na lei o direito de assistência a pais ou sogros.
