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Calçar os sapatos dos outros

Porque não era eu naquelas circunstâncias? Que fiz eu para ter tido uma família que me ama e que cuidou de mim? Porque não fiz aquelas escolhas? Não sou em nada melhor ou mais especial do que aquelas pessoas…

Pormo-nos no lugar dos outros faz-nos crescer em humanidade, empatia e compaixão. Reconheço dificuldades em mim em viver esta atitude com algumas pessoas ou tipos de pessoas. O meu trabalho como jornalista e a minha vida como mãe e pessoa atenta aos que me rodeiam tem-me dado oportunidades de crescimento pessoal a este nível.

Recordo o dia em que, em reportagem conheci alguns sem-abrigo. Quando escrevo “conheci”, não quero dizer que me cruzei com eles deitados no chão ou sentados num qualquer passeio à beira da rua. Não, conheci-os mesmo. Conversei com eles, olhos nos olhos, sem olhar para o relógio, escutando o que quiseram partilhar sobre as suas vidas.

Neles descobri vidas tão difíceis desde muito cedo, famílias desestruturadas, agressões e descuidos vários na família restrita, mais alargada e mesmo no Estado. Claro que também existiram comportamentos incorretos, más escolhas, companhias que ajudaram a piorar tudo, consumos excessivos de álcool.

Acabei as conversas emocionada, e com um peso no coração. O peso não era por eles. Felizmente estão encaminhados depois de várias décadas a viver ao relento ou abrigados junto a prédios. Recuperaram a autoestima e os comandos da sua própria vida. Estão fora da rua ou a caminho disso.

Noutra altura, entrevistei alguns jovens reclusos, bastante mais novos do que eu. Podiam ser meus filhos. Mais uma vez terminei a conversa a questionar-me: porque não era eu naquelas circunstâncias? Que fiz eu para ter tido uma família que me ama e que cuidou de mim? Porque não fiz aquelas escolhas? Não sou em nada melhor ou mais especial do que aquelas pessoas…

O mesmo sentimento vem ao conhecer famílias de refugiados e imigrantes que contam como fugiram de países em que quando se vai ao serviço militar não se sabe quando se volta e muitos nem voltam a casa; onde se tem medo de sair à rua, aceitar boleia da família de colegas da escola ou ir a casa de um amigo; onde ser esfaqueado ou assaltado na rua é o prato do dia…

Se fosse eu no lugar dessas pessoas, o que faria? A linha que me separa delas é tão ténue. Ouvi-las e conhecê-las pelo nome fez-me identificar com elas.

Um provérbio índio diz que não se deve julgar ninguém até ter andado muitos dias com os seus sapatos. Que diferença faz isso? Andar com os sapatos dos outros é uma maneira figurada de dizer: viver a vida dos outros, experimentar os seus limites, o seu contexto, as suas riquezas. É algo que tento pôr em prática: não propriamente viver a vida dos outros, claro. Mas tentar olhar além do que é visível à primeira vista. Nem sempre consigo, mas só tentar já faz toda a diferença.

Ver o que está por trás dos comportamentos ajuda a compreender a circunstância, o mote e a encontrar a forma mais ajustada de responder ou de calar. Assim se percebe que aquela criança que bateu na nossa filha afinal teve mudanças familiares recentes; que o menino que “roubou” o carregador de telemóvel da professora queria levar um para a mãe que tinha perdido o seu; aquela colega que passou o dia a gritar está a passar por uma crise conjugal…

Perceber as razões não legitima um mau comportamento, mas ajuda a não confundir o comportamento com a pessoa. Esta mudança começa logo pelas palavras que usamos. É completamente diferente dizer que alguém está a ser mesquinho ou é mesquinho, é traiçoeiro ou foi traiçoeiro. “Estar” remete para um comportamento episódico, ocasional. “Ser” para algo intrínseco à personalidade da pessoa. Que tal começar a “calçar” os sapatos dos outros, começando pelos que estão mais próximos, em casa, nos vizinhos, nos familiares, no nosso bairro ou freguesia?

É completamente diferente dizer que alguém está a ser mesquinho ou é mesquinho, é traiçoeiro ou foi traiçoeiro.

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